A Polemica do Vestido ensina: Nós vemos o que pensamos!

Caso prefira uma versão resumida, leia A Ciência por trás do #TheDress

A cor do vestido virou viral. Todos alvoroçados e discutindo se o vestido é dourado-e-branco ou azul-e-preto. Caitlin McNeil, a dona do vestido e da foto que originou a discussão, já revelou que o vestido é azul-e-preto, mas a discussão não para porque agora as pessoas querem entender porque o mundo se divide em praticamente dourado-e-branco e azul-e-preto. A resposta é simples. Nós vemos o que pensamos. Mas para entender essa frase é preciso entender pelo menos um pouco como a mente humana funciona.

dress color

A cor é muitas vezes pensada como uma qualidade do objeto ou da luz, mas isso não é verdade. Por exemplo, a expressão “o oceano é azul” utiliza a percepção da cor azul para descrever a luz física. A cor em si não está no oceano e nem na luz emitida do mesmo. A cor é um fenômeno mental determinado por processos neuronais e a luz é apenas o início desse longo (mas rápido) processo que termina com a percepção de uma ou mais cores. Um comprimento de onda próximo de 470 nm é geralmente – mas não sempre – percebido como azul e nenhum comprimento de onda (luz) é dotada de uma cor. Não existe uma relação direta entre o comprimento de onda e a percepção de cor. A experiência do azul, bem como todas as outras cores, é uma construção mental.

A experiência de uma cor é como a compreensão de uma língua. Não há sentido no som físico de uma frase em japonês se a pessoa não aprendeu a língua assim como não há nenhum azul num comprimentos de onda próximo de 470 nm. O cérebro precisa interpretar o som físico assim como o comprimento de onda.

Esse conhecimento é antigo mas ainda pouco ensinado nas escolas em geral. Isaac Newton brilhantemente escreveu em seu livro Opticks publicado pela primeira vez em 1704: “E se em algum momento eu falo de luz e raios como coloridos ou dotados de cores, gostaria de ser entendido como não falando filosoficamente e corretamente, mas grosseiramente – tais concepções seriam apenas atribuídas por pessoas leigas ao observar esses experimentos. Para falar corretamente, os raios não são coloridos. Neles não há nada além de um certo poder e disposição para gerar a sensação desta ou daquela cor”.  Mais de 200 anos depois, W. D. Wright foi inspirado pelas palavras de Newton e publicou um livro chamado “Os raios não são coloridos”, em 1967, afirmando que “a percepção de cores está dentro de nós e as cores não podem existir a menos que haja um observador para percebê-las. A cor não existe nem mesmo na cadeia de eventos entre os receptores da retina e o córtex visual, mas apenas quando a informação é finalmente interpretada na consciência do observador”.

A percepção humana é relativa assim como a percepção de cores também. Mas fica mais fácil entender esse conceito de relatividade se usarmos preço como exemplo. O vestido em questão custa 77 dólares. Isso é caro ou barato? Depende. É irrisório para qualquer celebridade presente numa cerimonia do Oscar mas caro para uma mulher de rua, seja em Nova York ou São Paulo.  Se considerarmos que o dólar agora custa praticamente 3 reais, esse vestido é mais caro para uma mendiga em São Paulo do que para uma indigente em Nova York.

#TheDress #WhiteandGod #BlackandBlue
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E o que o preço tem a ver com a cor? Da mesma forma que caro e barato é um julgamento que depende da conta bancária de cada um, a cor do vestido também depende de como o cérebro de cada observador funciona e, no caso específico do vestido, as pessoas se dividem em duas categorias, dourado-e-branco ou azul-e-preto. A cor do vestido como já sabemos é azul-e-preto, mas a foto gerou um vestido diferente (veja ilustração acima) que pela maior parte dos observadores será percebido ou como azul-e-preto ou como dourado-e-branco. Quem tem razão? Todo mundo.

A forma que eu encontrei para explicar por que todo mundo tem razão é aplicando o conhecimento que tenho para entender a polêmica do vestido.

Sou neurocientista e especialista em percepção de cores, e acordei na sexta-feira com vários e-mails e mensagens sobre o vestido. Achei extremamente curioso e fui checar a tal foto e logo conclui que estavam todos vendo a mesma foto em diferentes telas e diferentes telas produzem a emissão de diferentes luzes que, por sua vez, influenciam na percepção do observador. No entanto, uma amiga não aceitou minha explicação e foi categórica ao afirmar que a diferença de cor era gritante e mesmo quando as pessoas observavam a mesma tela elas se dividiam entre dourado-e-branco e azul-e-preto.

#thedress #whiteandgold #blackandblue

Eu ainda não estava convencida, mas me vi apenas com uma opção, a de testar com o meu próprio celular. Aproveitei que ia correr no South Side YMCA e testei a foto (acima) em 24 pessoas: 12 percebiam dourado-e-branco e 12 percebiam azul-e-preto. Na mesma hora, e do outro lado da cidade, uma aluna testou seus 29 colegas de trabalho: 11 percebiam dourado-e-branco e 18 percebiam azul-e-preto. Vou pular a explicação estatística e dizer apenas que a proporção entre dourado-e-branco e azul-e-preto só pode ser seguramente definida depois de rigorosamente testada, mas o que importa é que a foto é realmente polêmica e as pessoas se dividem entre dourado-e-branco e azul-e-preto. Em geral, as diferenças de percepção de cores ocorrem com frequência mas são sutis e por isso não prestamos atenção. No caso da foto é gritante – como enfatizou minha amiga, virou viral e, só se fala disso.

Nosso cérebro vem equipado com um mecanismo que se chama constância perceptual e que traz um pouco de estabilidade para nossas vidas já tão conturbadas. Tanto a constância de cor quanto a constância de tamanho ou de forma, entre outras, visa amenizar a instabilidade perceptual do nosso cotidiano. No caso do tamanho, se uma pessoa está muito perto de você, a imagem dela projetada na sua retina é diferente da imagem projetada quando ela está longe de você, mas seu cérebro não tem nenhum problema em entender que é mesma pessoa e com o mesmo tamanha, nem maior e nem menor.

No caso especifico da cor, esse mecanismo está o tempo todo compensando as mudanças na iluminação para que a aparência de cor dos objetos se mantenha estável. Sem a constância de cor perceberíamos os objetos mudando constantemente de cor porque a luz emitida pelos mesmos de fato muda de acordo com a mudança na iluminação, seja natural ou artificial. Em outras palavras, não vemos diferenças onde elas existem e, portanto, “não vemos o mundo como ele é, mas sim como pode nos ser útil” como afirma Beau Lotto.

O primeiro relato de que se tem conhecimento sobre a constância de cor é de 1694, feito por Philippe De La Hire que afirmou o fato de não percebermos que as cores são diferentes sob a luz do dia ou sob a luz de velas. Mas foi uma semana antes da revolução francesa (1789) que Gaspard Monge fez uma demonstração brilhante a respeito da constância de cor,  chamando a atenção da Academia Real de Ciências de Paris para o fenômeno. Monge, vestindo uma malha vermelha, pediu a seus colegas que a observassem através de uma lente vermelha. Surpresos, os presentes tiveram a sensação de que a malha tinha um vermelho muito esbranquiçado, praticamente branco.

Alguns cérebros assumem que a iluminação é amarela e descontam essa iluminação percebendo o vestido azul-e-preto e outros assumem que a iluminação é azul e descontam essa iluminação percebendo o vestido dourado-e-branco. A simulação abaixo é a que melhor ilustra a diferença entre aquele que desconta a iluminação azul (esquerda) e aquele que desconta a iluminação amarela (direita).

Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/
Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/

Se você não nasceu na era digital e tirava fotos, já teve que escolher entre os filmes Kodak e Fuji. As câmeras analógicas não vinham equipadas como o nosso cérebro e não eram capazes de descontar a iluminação do ambiente. O que chamamos de constância de cor para a percepção, chamamos de white-balance para a fotografia e o cinema. Naquela época as pessoas tinham duas opções, para fotos com tons mais quentes o filme Kodak e para fotos com tons mais frios o filme Fuji.

Left: Kodak and Right: Fuji  https://benhorne.wordpress.com/
Left: Kodak and Right: Fuji
https://benhorne.wordpress.com/

Mas então, porque o mundo parou para aprender esse mecanismo somente agora? A constância de cor faz com que não percebamos diferenças onde elas existem e, de fato, o mundo somente parou porque a diferença é brutal, mas para entender essa diferença é preciso entender como construímos as relações entre cores (espaço de cores) dentro do nosso cérebro.

Nossa percepção de cores é baseada em dois canais cromáticos que trabalham em oposição, o azul-e-amarelo e o verde-e-vermelho. E o que significa isso? Como o azul é oposto ao amarelo, eles não coexistem e por isso não podemos perceber um azul-amarelado ou amarelo-azulado e o mesmo vale para o verde e o vermelho. Vale ressaltar que nosso visão é baseada em cores-luzes e não cores-pigmento e não dá para entender essa questão pensando em como fazemos cores com tinta, mas isso é um outro assunto (pp. 38 desse artigo).

O vestido original emite luzes que geralmente faz com que percebamos o mesmo em azul-e-preto, mas a foto do vestido saiu bem diferente. A análise da foto nos informa que o vestido deveria ser percebido como dourado-e-azul mas essa imagem é instável e carregada de luzes, impondo ao cérebro uma tarefa árdua, a de decidir em fração de segundos qual é a cor predominante da iluminação para fazer o desconto e gerar a percepção de cores e, nessa foto, temos duas opções, descontar uma iluminação azul ou descontar uma iluminação amarela.

Human Color Space
Human Color Space

Se a tarefa fosse decidir entre uma iluminação azul ou verde o vestido não tinha virado sucesso. Azul e verde não são oponentes e as diferenças perceptivas teriam passado desapercebidas. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e descontar o verde gera uma percepção onde predomina o vermelho. Amarelo e vermelho são duas cores diferentes mas entre uma e outra existe uma infinidade de amarelos-avermelhados, amarelos-alaranjados, laranjas-avermelhados, entre muitas outras descrições similares que já estamos acostumados e não causaria nenhuma polêmica. No caso do azul e do amarelo, que são oponentes, quando o cérebro assume um ou outro o resultado perceptivo difere completamente. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e logo as pessoas percebem dourado enquanto descontar o amarelo gera uma percepção onde predomina o azul. Entre o azul e o amarelo não existe nenhum intermediário cromático, ou seja, nomeamos de amarelo ou azul e aí reside a explicação da diferença gritante.

Há pouco mais de 100 anos, Ewald Hering propôs que a experiência da cor resulta da análise das cores em pares opostos. O verde opondo-se ao vermelho. O azul opondo-se ao amarelo. Assim, explicou o porquê de não sermos capazes de ver verdes-avermelhados ou azuis-amarelados e também utilizou exemplos de pós-imagens que podemos perceber depois de fixar o olhar por aproximadamente 30 segundos em uma mesma imagem, vide o arco-íris abaixo. Mais tarde, adicionou aos canais verde-vermelho e azul-amarelo, o canal branco-preto.

Arco-Íris: Fixe o olhar na bolinha preta por 30 segundos e depois olhe para o fundo branco.
Arco-Íris: Fixe o olhar na bolinha preta por 30 segundos e depois olhe para o fundo branco.

Além dos canais cromáticos, possuímos um terceiro canal, o preto-e-branco, mas diferente dos canais de cores, entre o branco e o preto existem muitos tons de cinza. Assim como olhar a malha vermelha com um filtro vermelho nos faz perceber a mesma praticamente branca, descontar a iluminação azul nos faz perceber o azul da foto como branco enquanto descontar a iluminação amarela faz com que percebamos o dourado da foto como preto.

O que faz uma pessoa ver dourado-e-branco e uma outra pessoa ver azul-e-preto? Se minha pequena amostra de que 50% percebe dourado-e-branco e 50% percebe azul-e-preto for confirmada, temos que considerar a possibilidade da escolha ser mero resultado do acaso orquestrando nossos cérebros assim como tirar cara ou coroa é também uma obra do acaso. Se minha amostra não for confirmada, a resposta mora em algum outro lugar. Nesse caso, uma pesquisa mais adiante poderia nos ajudar a entender o que difere os que veem dourado-e-branco dos que veem azul-e-preto, mas de uma forma ou de outra, está todo mundo com a razão porque nossas mentes foram projetadas para ver um pouco mas não muito e isso varia de cérebro para cérebro e Drummond estava certo porque “cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua myopia”.

Versão resumida desse artigo em A Ciência por trás do #TheDress

Claudia Feitosa-Santana é neuroscientista e especialista em percepção de cores com mestrado em psicologia experimental e doutorado em neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo, e pós-doutoramento em neurociências integradas pela Universidade de Chicago. Mora em Chicago e é atualmente professora da The School of The Art Institute of Chicago e da Roosevelt University.

 

Written by Feitosa-Santana

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